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Segundo a visão de Lukács, baseadas nas ideias de Hegel e de Karl Marx, o romance é um produto literário fruto da sociedade burguesa, que representa uma expressão artística de uma determinada época.
Para Bakhtin o gênero é uma expressão interminável, pois assim como o homem, a literatura nos tempos modernos estão em constante evolução. Para ele, o herói absoluto e coletivo do mundo épico é um gênero acabado. A epopeia é a expressão de uma sociedade e o romance uma forma de conhecê-la. Bakhtin aponta que o romance possui três elementos que o estrutura: tridimensão linguística e estilística, a transformação radical no tempo e a nova estruturação do elemento da realidade presente.
Segundo Watt, na obra o realismo e o romance, o gênero é definido em categorias narrativas, como individualidade, originalidade, identidade, tempo, espaço e linguagem referencial. Ou seja, a personagem faz parte de uma sociedade num contexto temporal e espacial. Assim se estabelece uma “ correspondência entre a vida e a arte” e a partir disso, pode se consolidar uma conexão do realismo e a literatura.


Para Lukács, o romance é problemático, uma vez que trabalha com elementos que não provém da mesma substância humana e não pode mais criar um universo que comunique uma experiência autêntica. Já para Fehér, o romance é ambivalente e provém de uma sociedade burguesa, no entanto, reage contra ela. Toda essa ação não leva o gênero à morte, mas sim a uma reconfiguração de representação devido às transformações que a sociedade passou.
As civilizações arcaicas foram representadas através das epopeias, das coletividades e dos heróis, que não tinham a preocupação de representar aspectos secundários da vida, mas sim a própria essência. Dessa forma, o eu e o mundo, torna-se o elemento fundamental da estrutura do romance, o que leva Lukács considerar este o seu fim.
No romance que representa a sociedade burguesa, não há relações com o mundo, a representação fica cada vez mais restrita a coletividade. Feher relata que o romance não perdeu a esfera temática, o herói precisa de um meio artificial, que não existia na epopeia, já que tudo era natural.
A mudança de valores da sociedade burguesa justifica as transformações das epopeias na estrutura do romance, fica configurado o anonimato do herói e a representação de valores individuais. O que acarreta em outra mudança, a do cotidiano e não cotidiano, público e o privado, também presentes nas epopeias. O antagonismo entre o público e o privado e o fato
de o romance ser fruto das epopeias burguesas, leva-nos a acreditar que que ele está interligado com a estrutura do sistema econômico.
A burguesia cria um público novo, o que foi muito difícil, já que na epopeia não existia o problema da verossimilhança, pois o leitor se identificava com a narrativa. O autor deixa de lado os instrumentos essenciais íntimos ligados ao homem e passa a relacionar-se com objetos obsoletos e de interesses secundários.
Se o indivíduo é problemático, o romance passa a ser a representação da emancipação do homem, trazendo a colisão dos valores de uma sociedade. Na literatura brasileira é possível encontrar alguns escritores que revolucionaram esse gênero literário como, Guimarães Rosa e Clarice Lispector, essas narrativas inovaram a concepção de romance no século XX, rompendo com os paradigmas narrativos e trazendo a sua fragmentação ficcional.
A prosa contemporânea apresenta o público e o privado, problematiza as diferenças e as mudanças do mundo moderno. A estrutura do romance leva o conhecimento de possibilidades de humanização e do que a sociedade é capaz. A adaptação da narrativa a contemporaneidade do homem no tempo, traz à tona temas do cotidiano e engloba emoções, comportamentos e contextualização que dão espaço a subjetividade do leitor. O romance prevalece como um gênero literário ambivalente que incorpora na sua estrutura as contradições da sociedade que o gerou e ao mesmo tempo, reage contra a alienação dos indivíduos dessa sociedade.


Referência:
Mello,Cláudio José de Almeida e Oliveira Vanderléia da Silva. Romance: gênero problemático ou ambivalente?. TODAS AS LETRAS U, v. 15, n. 1, 2013.